segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Entre a caridade e a ciência, Eliane Cristina Deckmann Fleck

Uma obra monumental (mais de 550 páginas) de uma das maiores especialistas em história das práticas missionárias dos jesuítas na América. Neste livro, a historiadora Eliane Cristina D. Fleck reúne diversos textos de sua grande trajetória de pesquisas dedicadas com afinco, originalidade e pioneirismo ao tema das sensibilidades dos jesuítas e dos Guarani nas reduções do Paraguai dos séculos XVII e XVIII. Dividido em quatro partes, a obra aborda diversos discursos e práticas dos jesuítas em contato com os indígenas, com reflexões sobre: adoecimentos, epidemias, curas, saúde, mortes, "remédios", boticários, medicina, cultura científica, farmacopeia indígena e colégios jesuíticos.
Ancorada na História Cultural e na Antropologia, o livro é uma demonstração de como o historiador deve "ler" as fontes; é uma verdadeira exposição de pleno domínio e conhecimento sobre as possibilidades interpretativas das fontes (cartas ânuas, livros de medicina, de ciência, de história natural), revelando, com perspicácia, interessantes conclusões a respeito das vivências compartilhadas por jesuítas e indígenas, sujeitos que, em contato, estavam propícios a diversas experiências, cujas traduções eram complexas, dinâmicas, plurais, tensas.
Leitura fundamental para quem se dedica não apenas ao estudo da atuação da Companhia de Jesus na América, mas a todos que pesquisam temas que envolvam história das religiosidades e história da ciência, especialmente no contexto da América colonial portuguesa e da América Platina.



FLECK, Eliane Cristina Deckmann. Entre a caridade e a ciência: a prática missionária e científica da Companhia de Jesus (América platina, séculos XVII e XVIII). São Leopoldo: Oikos/Unisinos, 2014.

Nosso amplo presente, Hans Gumbrecht

O futuro, uma ameaça. O presente, amplo, com mundos simultâneos, com demasiadas possibilidades, sem identidade de contornos indefinidos. Os passados inundam o nosso amplo presente.
O pequeno livro (153 páginas), do intelectual alemão Hans Ulrich Gumbrecht, é uma junção de artigos já publicados na Europa entre 2008 e 2011.
Chega em boa hora, quando a historiografia brasileira tem se interessado muito pela ideia de 'regimes de historicidade' e 'presentismo', anunciadas por François Hartog.


GUMBRECHT, Hans Ulrich. Nosso amplo presente: o tempo e a cultura contemporânea. Tradução Ana Isabel Soares. São Paulo: Unesp, 2015.

Poesia e Política, Robert Darnton

Sobre a comunicação oral e escrita nas ruas de Paris no século XVIII.
Mais uma obra genial do historiador norte-americano Darnton, que demonstra com grande maestria como o historiador pode (e deve) manejar as fontes e como deve demonstrar suas interpretações.

Resenha em parceria com Yllan de Mattos:
http://www.seer.ufrgs.br/index.php/anos90/article/view/51850



DARNTON, Robert. Poesia e polícia: redes de comunicação na Paris do século XVIII. Tradução Rubens Figueiredo. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

domingo, 31 de agosto de 2014

A alma das coisas, José Reginaldo Santos Gonçalves

"A alma das coisas", numa série de artigos, sintetiza bem a artificialidade da divisão do patrimônio entre dimensões materiais e imateriais. Busca destacar a flagrante materialidade daquilo que é considerado imaterial. A obra questiona a separação material/imaterial das edificações, das práticas culinárias, das festas populares, alertando para a indeterminação destas dimensões estanques em relação ao patrimônio. Dependendo do contexto sociocultural, essas oposições (tangível/intangível) ganham contornos e formas distintas. Entre os temas abordados por diversos autores (antropólogos e sociólogos)estão: formas de habitar, baianas de acarajé, objetos no candomblé, folias de reis, objetos nos maracatus, memória na construção do patrimônio familiar. Ao final do livro, um lindo caderno de imagens completam o entendimento da obra.

GONÇALVES, José Reginaldo Santos; GUIMARÃES, Roberta Sampaio; BITAR, Nina Pinheiro (orgs). A alma das coisas: patrimônios, materialidades e ressonância. Rio de Janeiro: Mauad X,FAPERJ, 2013.

sábado, 30 de agosto de 2014

Uma breve história da eternidade, Carlos Eire

"Uma breve história da eternidade" é um livro incrível. Uma historicização das concepções ocidentais sobre a eternidade da Antiguidade aos dias atuais. O historiador Carlos Eire, professor da Universidade de Yale (EUA), destaca assim o tema do livro: "Como as concepções de para sempre, ou eternidade, se desenvolveram na cultura ocidental, e qual foi seu papel na formação de nosso entendimento próprio, pessoal e coletivo. Essencialmente, trata-se de um livro sobre a crença, sobre os modos como o inimaginável é imaginado e reificado, ou rejeitado, e os modos como as crenças se relacionam com a realidade política e social" (p.25). Aborda as concepções religiosas de eternidade até os enfrentamentos das angústias da transitoriedade da vida. Um livro muito bem escrito.




EIRE, Carlos. Uma breve história da eternidade. Tradução Rogério Bettoni. São Paulo: Três Estrelas, 2013.